quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Palestra sobre Disciplina ( Autoridade, moral e ética) Yves de La Taille

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Palestra proferida em 14 de abril de 2005 pelo Professor Yves de La Taille, do Instituto de
Psicologia da USP, especializado em estudo da moralidade, durante supervisão realizada pelo
Centro de Referência às Vítimas de Violência - CNRVV aos Pólos de Prevenção à Violência Doméstica.
Palestra sobre Disciplina ( Autoridade, moral e ética) Yves de La Taille

Introdução


Falarei sobre limite, disciplina e comportamento, lembrando que eu sou pesquisador em psicologia, e
que, portanto, é do lugar da psicologia que eu vou falar.

Vocês trabalham com crianças e adolescentes e, inevitavelmente, enfrentam conflitos. Trabalhar
conflitos é natural, qualquer vida social tem conflitos. O problema é quando o conflito se torna
confronto, como o coloca Mário Sérgio Cortella, quando ele vai além das turbulências normais que
marido e mulher têm, que pai e filho têm, e que a gente tem até no trânsito. E, evidentemente, o
confronto desequilibra as relações.
Eu ousaria dizer que no mundo ocidental de hoje, e no Brasil em particular, nós vivemos em uma
sociedade mais de confronto do que de conflito. Conflito qualquer sociedade tem. Hoje, no bairro, na família, no país, e eu diria no planeta, estamos em um mundo de confronto, um mundo perigoso, no sentido de que esse confronto pode levar, e tem levado, à violência.
Muito bem, eu vou trabalhar esse tema através de um conceito: disciplina. O sentido da disciplina, a
questão da obediência e a questão do respeito. Não é a mesma coisa que obedecer. E uma terceira
definição de disciplina é auto-disciplina, ou seja, é o autocontrole.
Vou dividir a minha fala em três blocos. Uma vai falar de autoridade, outra de moral e a
terceira de ética.

A autoridade

Autoridade é uma relação de obediência voluntária. Ou, se vocês quiserem, é uma relação na qual
quem manda é legitimamente colocado nesse posto por quem obedece. Exemplo: vocês vão a um
médico e se ele manda sentar vocês sentam, se ele manda levantar vocês levantam, se ele manda
deitar vocês deitam, e assim por diante. Ou seja, vocês obedecem. E vocês obedecem porque por
algum motivo vocês legitimam a ordem daquela pessoa. A relação de autoridade é a relação de
mando e obediência. E evidentemente os educadores, seja em que nível for, pressupõem que seus
alunos os obedeçam: "Leiam tal texto", "Façam tal coisa".
Vamos ver o que é o oposto da autoridade. Há dois opostos. Um eles é a anomia. Anomia é uma
situação social onde não há regra, não há acordo entre os membros da sociedade sobre o que é certo
e errado. Se existe em determinado lugar, um determinado país - e alguns dizem que o Brasil é um
desses hoje - uma relação de anomia, as relações sociais são conflitantes, e evidentemente, a relação
de autoridade não existe.
Porém, a outra oposição em relação a autoridade é mais sutil, porque ela confunde. O seu efeito é
parecido com o efeito da autoridade, mas não o seu processo. É a relação de poder. Por exemplo, se
entram dois ou três bandidos aqui armados e mandam a gente levantar as mãos, o que vamos fazer?
Vamos levantar as mãos! É obediência? Claro. É relação de autoridade? Não. A não ser que vocês
achem que os bandidos são autoridade. É uma relação de força, eles têm a força, têm armas e nós
não temos. Então levantamos as mãos. Em compensação, se descobrirmos que essas armas são de
plástico, de mentira, a relação de poder se inverte. Ela agora fica conosco, porque somos em maior
número, e quem obedece e vai embora são eles. Então, cuidado! Não é porque eu consigo colocar um prego na parede com um tamanco que o tamanco vira martelo. Ou seja, não é porque eu consigo
obediência com a força que eu sou uma autoridade.
Em geral, acontece o seguinte: é justamente porque eu não sou autoridade que eu preciso usar a
força. Na sala de aula, se o professor diz "Se você não fizer a lição vai de castigo, vai tirar zero, vai
repetir de ano, etc.”, instala-se uma relação que não é de autoridade, e sim de poder. Está clara a
diferença? Ou seja, se eu quero que alguém me obedeça, eu tenho duas formas básicas: uma é a
força, o castigo, e a outra é ser uma autoridade para isso.
Mas qual é o grande mistério? O mistério da autoridade não está em quem tem ou quer ter
autoridade, está em quem obedece.
Uma explicação para autoridade que não nos interessa aqui é a questão do prestígio, do carisma. Tem pessoas que conseguem mais do que outras ser obedecidas. Às vezes isso depende do prestígio
pessoal que elas têm, e às vezes inclusive de algumas qualidades pessoais e insondáveis que fazem
com que sejam mais liderança do que outras. Tanto é verdade que um carismático é incapaz de
ensinar o outro a ser carismático como ele. Como também o prestígio. Se o Pelé vem falar aqui de
futebol, claro que vamos dar algum crédito ao que ele disser.
E ainda temos que fazer diferença entre criança e adolescente. No caso da criança pequena, a
autoridade é muito ligada à figura do adulto. A relação de autoridade na criança pequena é uma
fusão de medo e amor, medo e apego. O que é medo? Eu estou me referindo ao sentimento natural
que o mais fraco tem pelo mais forte, que o menor tem pelo maior. Não estou me referindo ao
sentimento de medo decorrente de alguma violência. O medo é o sentimento natural que o menor
tem pelo maior. E o adulto representa esse maior para a criança pequena. Mas se for só isso, é medo, e voltamos à questão do poder.
Mas também depende de uma relação de apego, de amor, de sentimento positivo. É porque a criança gosta, ama, admira e vê aquela pessoa de alguma forma ‘boa’. É por isso inclusive que os pais são praticamente insubstituíveis na primeira infância enquanto figuras de autoridade. Mas os educadores podem perfeitamente ocupar esse lugar. Só que ele não é dado. Ele é construído na relação.
Evidentemente, um dos conselhos básicos que quem lida com criança pequena a meu ver deve seguir é que o educador nunca pode esquecer que antes de educador ele é adulto. Não é pelo educador que a criança sente amor e medo. É pelo adulto. E pode ser o vizinho, o pai, o porteiro, qualquer pessoa.
Eu digo isso porque acho que muitos educadores e muitos adultos hoje escondem a sua condição de
adulto. Acham que ser adulto ou mostrar-se adulto inevitavelmente é tirânico. Talvez seja. É uma
discussão valorativa. Mas o fato é que a relação de autoridade para a criança pequena depende dessa
relação com o adulto.
É por isso, inclusive, que uma boa professora de educação infantil tem características diferentes de
um bom professor universitário, por exemplo. Com a criança pequena, a parte afetiva ainda tem um
papel grande. Com criança, esse cimento afetivo é importante. Com adolescente já é diferente. O
adolescente já é praticamente um adulto. A partir dos 12 ou 13 anos, essa questão do amor e do
medo já não é mais central. O essencial, digamos, é uma relação contratual. A meu ver, criança
pequena respeita um adulto porque ele inspira medo e afeto. O adolescente respeitará esse adulto
porque ele representa uma instituição legitima.
Eu posso não gostar de um determinado presidente da República, posso discordar dele totalmente,
votar no seu concorrente, mas respeito o presidente da República não na sua pessoa, mas no lugar
que ele ocupa, na sua função. Com o adolescente, a autoridade vem da função, e não mais da
pessoa. Com criança, vem da pessoa. Criança pequena respeita professor porque ele é um adulto,
não porque ele ocupa a função de adulto. Adolescente respeita professor não porque ele é um adulto, e sim porque ele legitima o lugar que ele ocupa. E inclusive nesse caso, a autoridade está ligada apenas à função. Sou professor universitário e digo a um aluno: “Leia tal livro para a semana que vem”. Isso será bem-sucedido se eu sou uma autoridade para aquele aluno. “Vista-se de vermelho porque é mais bonito”. Isso não está na minha função de professor, daí eu não sou uma autoridade.
Eu acabaria esse tema da autoridade rapidamente dizendo que, se tem crise, o diagnóstico é de
vocês. Se o problema que vocês identificam não é um problema de respeito, mas é um problema de
não-obediência às ordens que vocês dão. Eu diria que, no caso da criança pequena, isso tem muito a
ver com a relação que vocês estabelecem com essa criança e a família, evidentemente, em torno
dessa criança. Se é com o adolescente, com crianças maiores ou adolescentes, o problema é
institucional. Ou seja, se eu não consigo estabelecer uma ordem de autoridade com um determinado
adolescente, certamente essa crise transcende a mim e a ele. A escola de hoje é um bom exemplo.
Hoje muitos professores na escola privada se queixam de que não são obedecidos. E se queixam que
os alunos dizem "A senhora não manda em mim, eu pago o colégio e etc". O que está em jogo é uma relação institucional.
O problema do Brasil hoje e do mundo ocidental em geral é um problema de crise de instituições. O
que significa crise de instituição? Não é apenas se elas funcionam ou não funcionam. O problema é
crise de legitimidade dessas instituições. E talvez a que esteja mais em crise é a política. Façam uma
pesquisa com as pessoas que vocês conhecem e perguntem quantas acham que político diz a verdade e se o que político diz tem que ser acatado? A maioria certamente responderá que não.
Eu fiz uma pesquisa com adolescentes sobre virtudes. Que virtudes - entre humildade, coragem,
generosidade, justiça -, as que vocês mais prezam? As que vocês menos prezam? E uma das
perguntas era "Dê exemplos de pessoas conhecidas que são para vocês representantes das virtudes e
exemplos de pessoas que sejam representantes contrários das virtudes (dos vícios)”. A pesquisa foi
feita com adolescentes de escola pública e privada. Portanto, um espectro, digamos, amplo do ponto
de vista socioeconômico. Dentre os bem colocados do ponto de vista da virtude não havia nenhum
político. Em compensação, entre aqueles considerados como carentes de virtudes, praticamente só
havia político. Isso é grave.
Eu diria que a democracia no Brasil não é um valor para muitos brasileiros. Não é um valor porque as pessoas esperam da democracia o que ela não pode dar. A pessoa espera da democracia empregos. É um erro. A democracia não é um sistema político que gera emprego. A democracia é um sistema político onde todas as facções são representadas. A democracia é uma chance de as idéias de justiça social e desenvolvimento terem lugar. Mas não garante que elas o tenham. E você tem regimes ditatoriais que geram emprego, como foi o regime militar brasileiro. O Brasil na época dos militares teve um milagre, que não se deveu ao regime, mas a uma conjuntura internacional. Hoje existe uma conjuntura internacional onde o PIB aumenta o desemprego também. Isso em todos os países. E isso não tem diretamente a ver com o regime político.
Agora, a democracia é o sistema político mais sofisticado. Não dá para dizer "Esses políticos não
prestam". Eles são eleitos. Então as pessoas no fundo reagem à democracia como se fosse uma
ditadura. Os políticos não prestam, mas eu presto. Sim, mas você vota. Claro que não é o seu voto
apenas. Mas você participa. Então a democracia é um sistema mais complexo.
Ainda em relação à autoridade, há uma crise no lugar no qual é menos esperado que ela aconteça -
se as teorias psicológicas tiverem razão a respeito da relação de afeto - a família.
Eu diria três coisas em relação a isso. Em primeiro lugar, a família mudou muito. Muitas das teorias
antigas pensavam uma família que é diferente da nossa. A família antigamente era pai, mãe, tio, avó.
Era um clã. Era uma instituição ampla, digamos assim. Hoje freqüentemente a família é pai e mãe, e
olhe lá se tiver o pai. A família ficou mais fraca. Em segundo lugar, penso que existe uma grande
novidade hoje que é a influência externa, notadamente via televisão. Quando eu era criança, as
referências que eu tinha eram meu pai e minha mãe, a escola e as leituras que meu pai e minha mãe
me davam. Ou seja, eu era alimentado por uma via de autoridade. Hoje em dia isso não tem
acontecido, notadamente graças à televisão. A televisão penetra em todos os lares, tem muito
prestígio. E ela divide no mínimo a sua força com a família.
Há também a questão econômica. Na maioria dos casais, mãe e pai trabalham. Antigamente não,
antigamente o pai dava financeiramente conta de esposa e filhos. Hoje, a mulher trabalha por
emancipação e por necessidade. Neste sentido, a escola deveria ser período integral. Tanto que os
europeus dizem que os brasileiros devem ser muito inteligentes. Dizem eles: “Nós aprendemos em
dez anos e ficando o dia inteiro na escola o que os brasileiros aprendem nesses mesmos dez anos,
mas ficando somente meio período na escola! Os brasileiros devem ter um Q.I. poderoso porque ele
consegue com a metade do tempo aprender a mesma coisa que nós, que ficamos das 9 às 16 horas
no colégio".
Em terceiro lugar, penso que existe uma coisa maior que transcende a questão da família, que é a
tradição. Nós somos uma sociedade que não dá valor ao passado. A figura do velho é mais a figura do impotente do que do sábio. É mais a figura de quem já deu o que tinha que dar do que alguém que acumulou uma certa sabedoria. Então hoje eu diria que são os pais que admiram as crianças, e não as crianças que admiram os pais. Porque os pais são vistos como aposentados de uma certa forma. E antigamente não era assim. Antigamente o pai, a mãe, o avô eram vistos como pessoas que tinham objetivamente conhecimento extremamente importante
Diz a Hannah Arendt que a referência à tradição é essencial na relação de autoridade. Então você
pode até ter uma autoridade com uma criança pequena quando ela tiver seis ou sete anos, mas logo,
se algo não vai além dessa relação puramente afetiva, você perde. E hoje muitos adultos não
desempenham esse papel de autoridade, não querem, talvez até para não assumir responsabilidade.
Afinal, quem manda é responsável pelas conseqüências de suas ordens. Creio que muitos adultos
preferem não assumir tal responsabilidade, e as crianças percebem isso.

A moral

Vou falar da esfera moral. O que é moral? Moral é parecida com autoridade, mas não se confunde
com autoridade. Moral é um conjunto de regras e princípios cuja obediência é obrigatória. Mas não é obrigação de obedecer a alguém, mas obrigação de obedecer a uma idéia.
Para que uma pessoa seja moral é preciso que ela legitime intimamente a regra. Exemplo: se eu não
mato porque tenho medo de ser preso, o meu comportamento não é moral. Quando a moral falha,
entra o poder. Agora, se eu não mato porque eu estou intimamente convencido de que é certo fazer
isso, de que é errado matar, não precisa de polícia nenhuma, porque eu não matarei. A moral venceu.
A nossa sociedade está em franca crise moral porque você vê multiplicarem-se as formas de poder e
de controle de comportamento (câmeras, radares, teste variados). Somente são necessários controles
quando desconfiamos da moral das pessoas. Se há confiança, não é necessário controle.
Moral é, do ponto de vista da forma, um conjunto de regras e princípios. Do ponto de vista do
conteúdo, nossa sociedade costuma eleger a justiça e a generosidade como duas virtudes básicas da
moral. Qual o avesso da moral? Pode ser de novo a anomia. Anomia, ou seja, não há regras,
não há princípios, não há valores que organizam a sociedade. E volto a dizer que isso não depende do sistema político. Pode acontecer com qualquer sistema político, transcende o sistema político. O
contrário da moral é o desrespeito. Vocês vêem que é diferente não obedecer e desrespeitar? Eu
posso não obedecer a alguém e ainda assim respeitar essa pessoa.
Um exemplo em sala de aula: "Fulano, faça essa coisa para a semana que vem". A pessoa diz "Não
fiz". Não obedeceu. Me desrespeitou enquanto pessoa? Não. Agora, se a pessoa dorme enquanto eu
dou aula: é problema de autoridade? O problema é moral? Minha resposta é que o problema é moral.
Avanço nesse exemplo. Quando eu dou aula e vejo alguém dormindo ou lendo alguma coisa, que
claramente não tem relação alguma com a aula, o que eu faço? Paro a aula. E o que eu digo para a
pessoa? Você não pode dormir, porque você me desrespeita. Ou seja, você está agindo como se eu
não existisse. Não eu professor, eu pessoa. Moral não tem a ver com cargo. Autoridade, sim. Moral
tem a ver com pessoa. E até digo, imagine um colega seu dando um seminário e tendo na sua frente
pessoas que agem como se ele não existisse? Em geral, inclusive, o aluno concorda. E depois eu
pergunto "Por que você está dormindo?", "Estou muito cansado. Não dormi essa noite", "Então pode dormir agora".
Vocês vêem a diferença? Uma coisa é eu chegar para o professor e dizer: "Hoje eu estou muito
cansado, estou tomando não sei que remédio, não dormi a noite", seja lá por que motivo for, “talvez
eu não consiga permanecer com os olhos abertos”. Mas isso não é desrespeito. É sono! Eu digo: tudo bem, durma”! Eu já sei que é isso. Outra coisa é você não saber por que a pessoa está dormindo, e freqüentemente não tem nada a ver com problemas outros. É puro descaso mesmo. Então essa é a relação moral. Então insisto em um ponto fundamental para vocês e para nós todos. A moral não são vocês professoras, vocês educadores, você seja lá o que for. A moral refere-se a vocês como pessoas.
A relação moral é uma relação de pessoa a pessoa. A democracia nesse sentido é importante. A
democracia diz "Somos todos iguais". E isso é uma base moral.
Na relação com seus alunos e educandos, é bom vocês verificarem se os sentimentos que vocês
experimentam é de desrespeito, de desobediência ou os dois juntos. Mas cuidado para não misturar
os dois. Eu desobedecer um guarda porque discordo de um determinado limite de quilometragem,
não significa que eu desrespeite moralmente a pessoa. E a gente tem que separar muito as esferas
da autoridade e da moral, porque eu sei que muitos professores se sentem desrespeitados porque
não são obedecidos.
Existe um desenvolvimento moral. Um nível básico do desenvolvimento da moral que já começa com quatro ou cinco anos é uma moral restrita a relações pessoa/pessoa. A partir dos doze anos, a moral se torna uma moral de grupo, de comunidade. E, se tudo der certo, se a evolução moral prosseguir, ela acaba abarcando aquela questão da humanidade. Precisaria de um curso inteiro para explicar os detalhes, mas lembro apenas disso: existe o desenvolvimento moral e, pelas pesquisas, a maioria dos adultos fica no meio do caminho.
A maioria costuma pensar a moral como um conjunto de regras e princípios que sustentam a
sociedade, ao invés de pensar na moral como um conjunto de regras e princípios que inspiram a
sociedade. Por exemplo: alguém rouba um remédio para dar ao filho muito doente. A priori, todo
mundo acha isso razoavelmente compreensível. Mas muita gente diz “Sim, está certo, mas imagine
se todo mundo fizesse isso, a sociedade seria insustentável”. Mas pode-se dizer que sociedade é essa
que para se sustentar precisa de pessoas que morram por falta de remédio e de socorro? Então, que
não se sustente essa sociedade. Todavia, pouca gente faz esta reflexão porque pensam a moral
como sustentação da sociedade, e não como guia da sociedade.
Aprofundemos agora a distinção entre regra e princípio. O que é uma regra? Regra é uma formulação verbal que me diz com precisão o que devo e não devo fazer. Exemplo: não matar. Não tem ambigüidade nesta formulação porque é clara, precisa, nítida.
Qual é a vantagem da regra? É a clareza. Ninguém pode culpá-la de ser ambígua. Qual a
desvantagem? A limitação da regra? Duas: uma, ela cobre um número limitado de situações. Mas
nas relações sociais da gente, nós temos mil e uma situações para as quais não têm regra. Não tem
regra pronta. Outra limitação da regra: é que ela diz o que fazer, mas não diz por que fazer. Então,
para superar essas duas limitações, a gente fala em princípios.
O princípio moral é a matriz de onde é derivada a regra. Exemplo: respeitai-vos uns aos outros. Ou
no cristianismo: amai-vos uns aos outros. É um princípio, não é uma regra. Pela simples razão que
se eu sair daqui convencido que eu devo amar a todos, eu não sei como fazer. O que é amar o meu
próximo? O que é amar uma criança? Nunca castigá-la? Ou castigo é uma prova de amor?
Antigamente se dizia "Quem castiga ama". Hoje muita gente acha que o castigo necessariamente é
uma forma de violência. Ou seja, o não matar é coerente com o respeito universal? Claro. O não
roubar também? Sim. Mas há outras possibilidades de tradução. A regra é o concreto. Não faça isso,
faça aquilo. O princípio é a matriz. É claro que a sofisticação moral mínima que se espera de uma
pessoa é que ela seja regida não por regra, mas por princípios. Sem contar que às vezes a sociedade
muda e há regras que não fazem mais sentido.
Há um erro pedagógico perigoso: é reduzir a moral à regras e não falar dos princípios. A maioria das
escolas, penso, comete esse erro. É muita regra e nenhuma explicação de princípio. Ora, quando a
criança é pequena, talvez até a segunda série, ela aceita sem maiores dificuldades a regra. A questão
do princípio ainda é intelectualmente sofisticada demais para ela, mas a partir de uns oito ou nove
anos de idade, ela exige o princípio. Ela não se convence mais apenas com a regra. E aí ela
desobedece. Estou falando de desobediência moral.
E às vezes nem o adulto sabe qual é o princípio. Peguem os regimentos das escolas. Uma quantidade enorme de regras justapostas "Você tem que chegar às 7 horas, tem que vestir uniforme e não pode assassinar o coordenador pedagógico". São regras. “Eu tenho que chegar às 7 horas, de uniforme e não posso matar o coordenador pedagógico”. A razão de ser dessas regras evidente são totalmente diferentes. Chegar às 7 horas é uma organização comunitária, não dá para fazer uma aula onde todo mundo chega em horários diferentes - apesar que a escola poderia se organizar de outra maneira. O uniforme para evitar desfile de vaidades é uma razão. Para proteger as crianças da escola até sua casa é outra razão. Para uniformizar as pessoas a la Mao Tse Tung é outra razão. Vamos discutir qual das três a gente quer. E não matar o coordenador pedagógico, essa sim é uma questão puramente moral. Mas eu acho que a maioria das escolas os professores e coordenadores não sentam com os alunos e falam dos princípios.

A ética

No mundo de hoje, as palavras moral e ética são empregadas quase sempre como sinônimos. Comitê de ética: é um comitê que vai estabelecer regras e conduta que correspondem a deveres. Portanto, é
a mesma dimensão da moral. Ética na política. Não se fala muito em ética na política? O que é ética
na política? É dizer para o senador, para o deputado "Não roube, não minta". Coisa que a gente diz
para uma criança de cinco anos. Poderíamos falar em moral na política
Mas existe uma outra definição de ética na filosofia, antiga aliás, que é a que segue: ética é projeto
de felicidade. A pergunta moral é “como devo agir?”. A pergunta ética é “que vida eu quero levar?”.
Ética é um projeto de vida que inclui a moral, um projeto de vida no qual o outro esteja
contemplado.
Temos uma bela definição de ética da por Paul Ricoeur, filósofo francês : ética é uma vida boa, para e com outrem, em instituições justas. Olha que programa perfeito. Que felicidade é essa que merece o nome de ética? O outro tem que estar incluído. Não há um projeto de felicidade meu, apenas meu,
onde o outro não existe. Ele deve estar incluído. De que forma? De três formas: com o outro, que
significa cooperação, para o outro, que significa generosidade, em instituições justas, que implica
recuperar a dimensão política (um mundo justo). Eu dificilmente posso ser de fato feliz - feliz com
uma certa dignidade -, se eu estou em um mundo injusto. Isso no Brasil é um grande problema. Não
se pode abstrair de forma alguma o fato de o Brasil não ser um país justo. Não se trabalha aqui no
Brasil como se trabalha na Finlândia. Porque as instituições aqui não são justas. Ou, pelo menos, não
funcionam de maneira justa.
Vida boa, felicidade, é vida com sentido, não somatória de momentos fragmentados de prazer.
Felicidade é sentido. Claro que é feita de pequenos prazeres, claro que é feita de uma certa saúde,
claro que é feita de detalhes cotidianos, mas os transcende.
Do ponto de vista educacional, o que eu acho que vocês têm que trabalhar é com a questão ética: o
sentido da vida. Porque se a vida não fizer sentido, o outro perde o sentido, a moral perde o sentido,
a autoridade perde sentido, e cai-se na anomia. Uma estatística: há três formas de morte violenta e
intencional, que são o crime, a guerra e o suicídio. Vocês sabem o que matou mais no mundo todo no ano de 2001? O suicídio: 800 mil pessoas. Guerras: aproximadamente 400 mil. Crime:
aproximadamente 400 mil. Ou seja, é preciso somar guerra e crime para empatar com o número de
suicídios. Isso é a estatística do planeta. Varia de lugar para lugar. Em alguns lugares, notadamente
na África hoje, no Oriente Médio, o que mata mais é guerra, Iraque, Palestina é guerra civil e entra
como guerra. Em alguns países pobres como o Brasil, a América Latina em geral, quem ganha é o
crime. Portanto, quem puxa a estatística lá para cima é o hemisfério norte, que justamente é o ideal
que a maioria tem de vida: viver como americano, como o europeu.
Por fim, eu acho que no trabalho de vocês, o menos importante é a questão da autoridade, porque
isso transcende vocês e tem a ver com o país. A questão moral evidentemente é essencial. Mas eu
acho que o que as crianças e os adolescentes querem dos adultos é alguém que lhes dê sentido, que
lhes aponte uma possibilidade de sentido.
Eu acho também que nós não estamos dando aos nossos jovens, seja de que classe social for, os
alimentos éticos de que eles precisam. E todos pagamos a conseqüência. No fundo, eles estão nos
dizendo: “Nós não topamos o mundo de vocês, então eu não vou nem obedecer, e nem respeitar”.
Vamos responder a isto com a força, com o controle externo?

FONTE: http://www.sel.eesc.usp.br/informatica/graduacao/material/etica/private/palestra_professor_yves_de_la_taille.pdf

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